A República do balcão de negócios

Enquanto EUA e China disputam as riquezas estratégicas do século XXI, parte da elite brasileira parece discutir apenas para quem entregar nossas terras raras e minerais críticos.

Capa do Arauto em 15 de maio de 2026.


A imagem é simbólica, mas resume perfeitamente o drama brasileiro contemporâneo: Xi Jinping e Donald Trump sentados à mesa, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro servem bandejas carregadas de terras raras e minerais críticos brasileiros. Muda-se a bandeira do freguês, mas o papel reservado ao Brasil parece continuar o mesmo: garçom de impérios.

O debate sobre minerais críticos e terras raras revelou uma contradição profunda dentro da política nacional. Em vez de discutir como transformar essas riquezas em alicerce de uma potência industrial soberana, parte da elite brasileira parece preocupada apenas em decidir para qual potência estrangeira o país deve abrir seu subsolo.

As terras raras não são um detalhe técnico. Elas são um dos pilares da economia do século XXI. Estão presentes em baterias, inteligência artificial, semicondutores, satélites, radares, equipamentos médicos, indústria aeroespacial e sistemas militares avançados. Quem controla esses minerais controla parte decisiva da indústria moderna e da geopolítica mundial.

É justamente por isso que Estados Unidos e China disputam ferozmente o acesso a esses recursos. A questão central é: o Brasil pretende agir como uma civilização soberana ou como uma grande colônia mineral de luxo?

Em agosto de 2025, durante entrevista à BandNew, o então ministro Fernando Haddad afirmou que minerais críticos e terras raras poderiam entrar em negociações com os Estados Unidos. Na ocasião, declarou:

“Temos minerais críticos e terras raras. Os Estados Unidos não são ricos nesses minerais. Podemos fazer acordos de cooperação para produzir baterias mais eficientes.”

O discurso foi apresentado como cooperação tecnológica e industrial. Ainda assim, a fala abriu margem para preocupações legítimas. A história econômica brasileira está cheia de acordos “estratégicos” que terminaram em dependência tecnológica, reprimarização econômica e submissão aos interesses externos.

Posteriormente, já em meio às discussões internacionais envolvendo Washington, Pequim e a corrida pelos minerais estratégicos, Lula adotou um tom mais soberanista. Em julho de 2025, durante cerimônia em Minas Gerais, afirmou:

“Temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão.”

Mais tarde, após reuniões envolvendo o governo americano e negociações geopolíticas em maio de 2026, Lula voltou a defender que o Brasil não deveria apenas exportar matéria-prima, mas desenvolver cadeia industrial própria.

O problema é que existe uma distância entre retórica soberanista e prática econômica concreta. O mesmo governo que fala em soberania frequentemente sinaliza abertura para grandes acordos internacionais envolvendo setores estratégicos, inclusive sob forte presença de capital estrangeiro, como minas de ouro quase totalmente controladas pela China na Bahia.

Em certos momentos, o discurso oficial brasileiro lembra um gerente de leilão tentando parecer patriota enquanto organiza a fila dos compradores internacionais.

Do outro lado do espectro político, Flávio Bolsonaro assumiu posição ainda mais explícita de alinhamento externo. Durante a CPAC realizada no Texas, em março de 2026, o senador declarou que:

“O Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.”

Na mesma ocasião, afirmou que sem esses minerais a superioridade tecnológica e militar americana ficaria ameaçada.

A fala é reveladora. Em nenhum momento aparece como prioridade central o fortalecimento tecnológico brasileiro, a criação de um complexo industrial nacional ou a construção de soberania produtiva. O foco apresentado é ajudar os Estados Unidos a vencer sua disputa estratégica contra a China.

Sob uma ótica nacional-desenvolvimentista, isso representa uma inversão completa da lógica patriótica. O objetivo de um país continental como o Brasil não deveria ser servir como fornecedor estratégico de uma potência estrangeira, seja Washington ou Pequim. O objetivo deveria ser utilizar suas riquezas naturais para construir sua própria autonomia tecnológica e industrial.

Há algo quase tragicômico na política brasileira contemporânea: parte da esquerda sonha em ser aceita pelos fóruns da globalização progressista, enquanto parte da direita parece disputar quem consegue prestar continência mais rápido para interesses geopolíticos estrangeiros. O povo brasileiro, sentado na arquibancada, continua ouvindo promessas de soberania enquanto vê navios carregados de riqueza deixando os portos.

É nesse contexto que a posição de Aldo Rebelo se destaca como uma das poucas formulações claramente nacional-desenvolvimentistas sobre o tema.

Rebelo tem defendido que minerais críticos e terras raras sejam tratados como ativos estratégicos de Estado. Em entrevistas recentes, afirmou que: “Sem terras raras não temos indústria de defesa.”

Também defendeu a criação de um fundo soberano ligado às terras raras e criticou duramente processos de desnacionalização no setor mineral.

Ao contrário das visões subordinadas à lógica da disputa EUA-China, Aldo propõe uma estratégia centrada no interesse brasileiro. Seu argumento parte de uma constatação simples: um país que exporta minério bruto enquanto importa tecnologia cara permanece preso à dependência.

O modelo defendido por ele envolve exploração controlada pelo interesse nacional, beneficiamento industrial dentro do Brasil, agregação de valor, presença estratégica do Estado e integração com setores como defesa, energia, semicondutores e alta tecnologia.

Essa é a diferença fundamental.

Uma visão subordinada pergunta: “Como o Brasil pode ajudar os EUA contra a China?”

Outra pergunta: “Como o Brasil pode negociar melhor com as potências?”

A visão nacional-desenvolvimentista pergunta algo muito diferente:

“Como transformar essas riquezas em poder brasileiro?”

A verdadeira soberania mineral não consiste em escolher entre Washington ou Pequim. Consiste em recusar o papel colonial reservado ao Brasil pelas grandes potências.

Terras raras não deveriam sair do país como simples commodity destinada a enriquecer cadeias industriais estrangeiras. Elas deveriam alimentar um projeto nacional de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial.

O Brasil possui território continental, abundância energética, base industrial ainda recuperável, capacidade agrícola gigantesca e uma das maiores reservas estratégicas minerais do planeta. Poucos países no mundo possuem condições tão favoráveis para construir autonomia real.

Mas nenhuma nação se desenvolve transformando sua política externa em balcão de negócios para impérios rivais.

A República do balcão de negócios é justamente isso: um sistema político que negocia ativos estratégicos sem construir um projeto nacional. Um país onde parte da elite pensa como corretora internacional de commodities, e não como liderança de uma civilização soberana.

O debate sobre terras raras deveria servir como divisor de águas.

Ou o Brasil assume uma postura soberana, industrializante e nacional-desenvolvimentista, utilizando seus minerais para construir poder tecnológico próprio.

Ou continuará preso ao velho destino colonial: extrair riqueza aqui, industrializar lá fora e importar depois, mais caro, aquilo que nasceu do próprio solo brasileiro.

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